Em agosto de 2004, em artigo publicado na
revista científica “Estudos Avançados”, do Instituto de Estudos
Avançados da Universidade de São Paulo1,
Paul Singer refletiu sobre a existência de dois projetos antagônicos
de desenvolvimento econômico: o capitalista e o solidário. Hoje,
refletir sobre essa oposição permanece urgente, uma vez que a crise
tecnológica, social e ambiental recoloca,
sob novas formas, problemas estruturais que o autor já identificava à época. Preferimos utilizar “envolvimento” no lugar de “desenvolvimento” e explicamos a escolha em um tópico específico ao longo do texto, esperando que ele consiga alcançar a massa crítica necessária para que as proposições nele contidas possam se reverter em ações efetivas em prol do fortalecimento de um bem viver que valorize relações baseadas na cooperação, na autogestão e na justiça social. O bem viver precisa da soberania digital, porque hoje grande parte de nossas vidas, comunicação, trabalho, cultura e organização coletiva, passam por tecnologias e plataformas onde muitas comunidades acabam ficando dependentes de grandes plataformas, que controlam dados, algoritmos e formas de interação. Isso limita a autonomia, a privacidade e até a capacidade de decidir sobre seus próprios modos de vida.
Esses dois projetos expressam visões radicalmente distintas de organização da vida econômica e social. De um lado, o envolvimento solidário se baseia na cooperação, ajuda mútua, autogestão, gestão coletiva, propriedade coletiva dos meios de produção, cuidado com as pessoas, acesso livre ao conhecimento e às ferramentas. De outro, o capitalismo, que se apoia em patentes, propriedade intelectual, alienação, competição, cada um por si, exploração de 99% para beneficiar 1% e propriedade privada dos meios de produção.
O que professor Paul Singer pensou
Segundo Singer, o (des)envolvimento solidário não se limita ao crescimento da economia, mas diz respeito, sobretudo, às condições sociais, políticas e éticas em que esse crescimento se realiza. Os pilares: novas formas de produzir, trabalho justo e distribuir riqueza para quem sempre foi deixado de lado. Aqui entra a sustentabilidade, que precisamos ampliar para regeneração do planeta e das fontes de energia/água/terra/floresta. O conhecimento tem que ser de todas e todos. O software livre (GNU/Linux)2 é o exemplo que desafia os monopólios das empresas que promovem e sustentam o colonialismo digital. Singer disse: conhecimento não pode ser propriedade privada com patentes, tem que estar livre para todas as pessoas.
Mudança aos poucos, não destruição de uma vez
A ideia é ir superando o capitalismo aos poucos, fortalecendo iniciativas solidárias que utilizem software livre para as necessidades da maioria. Singer compara transgênicos como mercadoria do capitalismo e agricultura orgânica como resultado da solidariedade. Escolher uma tecnologia é, portanto, uma escolha política. O envolvimento solidário impõe um filtro ético à tecnologia, ao considerar o impacto ambiental, a inclusão social e o fortalecimento da autogestão.
Em 2004 quando Singer publicou seu texto e fez referência aos orgânicos, o Sistema Agroflorestal Agroecológico (SAFA) estava em processo de consolidação e ausente do debate público. Por isso é importante reforçar que desde 2004 a agricultura orgânica isolada foi apropriada pelo
agronegócio, virando selo de mercado e monocultivo em grande escala, com preços inacessíveis para a classe trabalhadora e sem política voltada ao bem comum. Por essa razão, precisamos fortalecer a agroecologia, a ciência (conhecimento multidisciplinar), a prática e o movimento, que enfrentam a estrutura fundiária e a concentração dos meios de produção. O mesmo perigo ronda os Sistemas Agroflorestais (SAFs), a agricultura sintrópica de Ernst Götsch, que, embora beba de saberes indígenas e quilombolas, foi capturada por um discurso que lucra com palestras caras e suaviza o desmatamento. Os SAFs se tornaram artifício para legitimar latifúndios e barrar a reforma agrária sob o disfarce da sustentabilidade. Por conseguinte defendemos o Sistema Agroflorestal Agroecológico (SAFA), que regenera e recusa agrotóxicos e adubos químicos, valoriza saberes populares, agrobiodiversidade e protagonismo camponês da agricultura familiar. Um modelo político que enfrenta o agronegócio e a concentração de terras, diretamente ligado à soberania alimentar e à justiça social.
Para a Via Campesina, soberania alimentar é o direito dos povos de definir suas políticas de produção, distribuição e consumo de alimentos, com base na pequena e média produção e no respeito à diversidade cultural camponesa. O MST radicaliza esse conceito sobre três pilares indissociáveis: a Reforma Agrária Popular, que democratiza a terra contra o latifúndio exportador; a Agroecologia como modo de produção, que recusa agrotóxicos e resgata sementes crioulas; e o protagonismo das mulheres, guardiãs dos saberes alimentares e base estruturante da soberania.
Vale destacar que, sem soberania digital, até a construção da soberania alimentar está em risco e sob ataque, uma vez que a colonização das mentes, dos dados, das tecnologias e das subjetividades permite que as big techs controlem as sociedades em todas as suas dimensões.
Só sustentar não basta. É preciso regenerar o planeta
É preciso compreender que já ultrapassamos todos os limites da destruição do planeta. Só sustentar não vai preservar o futuro e a vida. Regenerar não é só sustentar. É restaurar aquilo que já foi destruído.
Precisamos regenerar as fontes de energia e apostar no renovável, limpo e descentralizado. Regenerar as águas é cuidar de nascentes, rios, aquíferos. Regenerar as terras é recuperar o solo destruído pela monocultura e agrotóxicos com Sistema Agroflorestal Agroecológico (SAFA), que revive a terra. Regenerar as florestas é plantar de novo, deixar a natureza se recompor. A agrofloresta com muvuca de sementes promove a colaboração entre plantas, árvores, cultivos e animais, pois mistura sementes nativas e adubo natural nas plantações, restaura o planeta e o solo, gera alimentos saudáveis e fortalece a resiliência climática.
Esses processos vão além do "sustentável", pois eles reconstroem o que foi demolido. No entanto não há regeneração sem transparência e conhecimento compartilhado. Por isso, regenerar a consciência crítica também é fundamental para recuperar nossa capacidade de pensar profundamente, resistir à colonização digital e agir com ética. Cuidar do planeta exige conhecimento livre para uma mente soberana.
É necessário superar o colonialismo digital
Para Sérgio Amadeu, o colonialismo digital não é uma simples metáfora, mas a atualização do antigo sistema de espoliação. O Brasil entrega seus dados brutos, como se fosse minério para que as big techs dos EUA os processem e os devolvam como produtos caros. Trata-se do velho ciclo
colonial: vende-se o ferro barato para comprar o aço caro, agora sob a forma de nossos dados, de nossa subjetividade e da nossa cultura.
Essa estrutura nos mantêm presos na dependência, mesmo sendo o Brasil politicamente independente. As gigantes da tecnologia não buscam apenas lucro, mas controle das subjetividades e poder político, desafiando Estados e influenciando governos. O caminho para romper com essa subordinação, segundo Amadeu, é a construção de uma soberania digital tecnológica baseada no software livre e no controle da infraestrutura. Além disso, é importante compreender que essa soberania digital deve ser também feminista, antifascista e antirracista, colocando o cuidado e os interesses da população acima dos lucros de qualquer corporação, seja nacional ou internacional.
O economista Ladislau Dowbor nos desafia a enxergar que o cerne da atual crise civilizatória não é apenas a acumulação de capital, mas a captura do próprio saber. Na "revolução digital", o conhecimento se tornou o principal fator de produção, e é justamente por isso que o capitalismo o cerca de patentes e propriedade intelectual, transformando-o em mais uma mercadoria para extrair valor e manter os monopólios. Para Dowbor, essa lógica é perversa, pois o conhecimento é um "bem comum" que, ao ser compartilhado, não se esgota, mas se multiplica. A saída, portanto, é radical: torna-se necessário socializar a infraestrutura informacional, praticar a colaboração e romper com as amarras da propriedade intelectual. O verdadeiro desafio da nossa era é libertar o conhecimento do cativeiro corporativo e colocá-lo a serviço da vida e da justiça social.
Tecnofeudalismo ou capitalismo?
Roseli Figaro, professora da USP, dedica-se a entender por que os trabalhadores não percebem sua própria exploração. Partindo do binômio comunicação e trabalho, ela defende que o trabalho é um processo comunicacional fundamental. Para Figaro, soberania digital significa a capacidade do Estado democrático de preservar direitos, recursos naturais e capacidade científica, com participação popular. Ela critica a "nuvem soberana" do governo federal e do Serpro que usam tecnologias da Microsoft, Google, Amazon e Oracle. É como alugar uma casa: você mora, mas o dono continua sendo outro.
A plataformização submete cadeias produtivas inteiras à lógica das big techs (como iFood e Uber) e precariza o trabalho com a lógica do século XIX: tarefas fragmentadas, pagas por peça, sem vínculo. O PIX é um exemplo ambíguo: soberania tecnológica a serviço do sistema financeiro hegemônico, que depende da infraestrutura das bigtechs.
Figaro denuncia a confusão ideológica da "esquerda", que aceita a inevitabilidade tecnológica. Para ela, a saída passa por articulação regional na América Latina, negociação dura nos BRICS e a construção de um projeto nacional popular.
Ela rejeita a tese do tecnofeudalismo: continuamos no capitalismo, que se reinventa. A esperança está na resistência que já existe, sindicatos, cooperativas, movimentos sociais, mas falta articulação política para construir unidade na ação política.
Além disso, a professora entende que é preciso tirar o debate do abstrato e pô-lo no concreto, com recursos naturais, trabalho e dados. Não há soberania enquanto o lítio do Cerrado, a água do Semiárido e os dados de 200 milhões de brasileiros forem extraídos de graça para alimentar a IA, feita a 10 mil km de distância.
O poder econômico e tecnológico nas mãos de poucas empresas dos EUA não é apenas desequilíbrio de mercado, é a continuação do colonialismo, agora com algoritmos. Regular terras, águas, dados e trabalho não é atrapalhar, pois é o único jeito de o país entrar na cadeia digital como sujeito, não como colônia. Sem regulação, nossa economia vira plataforma de extração, nossa democracia vira dados minerados e a justiça social vira uma promessa vazia. A pergunta que fica é: quem decide sobre o que é nosso?
Qual soberania digital a gente quer construir?
A nossa soberania digital não pode ser nem neutra, nem só técnica, tampouco ser feita apenas por homens brancos héteros em salas com ar-condicionado. A soberania digital que a gente quer, ou vai ser feminista, antirracista, antifascista, regenerativa e anticolonial, com gestão coletiva a exemplo da economia solidária, ou não vai ser soberana de verdade.
Enquanto as big techs fascistas e os EUA nos ameaçam, o Brasil tem terras raras, inteligência coletiva das universidades públicas, movimentos sociais, sindicatos e comunidades de software livre. Por isso, temos as condições para construir os nossos territórios digitais soberanos, que conectam os nossos povos, protegem os nossos corpos, compartilham poder, regeneram as nossas florestas e águas e colocam o cuidado e o bem comum acima do lucro.
O capitalismo quer impor 4 castas tecnológicas: os donos dos meios de produção da tecnologia, os experts em IA, os que usam IA para vencer a IA e os trabalhadores precarizados que mantêm cabos de conectividade e datacenters. Podemos recusar esse modelo. A escolha é política, urgente e coletiva, sem ninguém trabalhar sozinho. Todos juntos: setor governamental, setor empresarial, terceiro setor (sociedade civil e movimentos sociais) e comunidade científica e tecnológica (acadêmicos e pesquisadores).
Soberania digital para preservar a vida
Toda tecnologia é feita para um fim, não é neutra. Telefones celulares com GPS permitem rastreamento o tempo todo e aplicativos capturam dados e emoções. Palavras como "nuvem" escondem a verdade: datacenters consomem terra, energia, água e minerais.
Existem alternativas: metaReciclagem (recondicionar hardware), programação de computadores para inclusão e software livre (GNU/Linux), com suas 4 liberdades: executar, estudar, redistribuir, modificar. O Estado deveria usar e incentivar o uso do software livre. O Programa Paul Singer da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho já usa softwares livres, como Lime Survey, Rios e Apache Superset, e hospeda todos os dados no datacenter Pop Solutions3 100% soberano, gerenciado com software livre, enfrentando o desafio de pensar diferente num mundo dominado por plataformas proprietárias.
O momento histórico de 2004
O texto do Singer nasceu num momento bom: as gestões do PT nas prefeituras de São Paulo, com Marta Suplicy, e Porto Alegre, com Olivio Dutra/Tarso Genro, Raul Ponte e João Verle, fizeram do software livre, política pública. Em 2004, segundo ano do primeiro governo Lula, já tinham acontecido cinco edições do Fórum Internacional de Software Livre (FISL) e quatro do Forúm Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, pontos de encontro entre movimentos sociais, hackers, pesquisadores, educadores e gestores públicos.
Nesse ano, surgiu também o Programa Cultura Viva (Gestão do Ministro da Cultura Gilberto Gil), juntando economia criativa, economia solidária e software livre nos Pontos de Cultura. Em 2005, montamos o laboratório de conhecimentos livres no Acampamento Intercontinental da Juventude do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Em 2006, a TEIA, no Ibirapuera, consolidou o encontro entre cultura popular, economia solidária e tecnologias livres, com apoio da Secretaria Nacional de Economia Solidária, comandada pelo professor Paul Singer.
O que ficou dessa ideia
Desde 2004, o software livre se mantém como alternativa socialmente justa, economicamente viável e tecnologicamente sustentável. Duas décadas depois, reconhecemos nele uma nova virtude: a de ser uma tecnologia que nos dá tempo para regenerar o meio ambiente. O debate sobre tecnologia livre floresceu como política de autonomia, justiça social e resistência à dependência tecnológica, enfrentando as gigantes como Microsoft e Apple. As experiências dos governos populares mostraram que o povo pode orientar as escolhas tecnológicas do Estado. A pergunta que fica: Por que, hoje, o software livre e o conhecimento livre não estão na pauta dos governos progressistas de esquerda, dos sindicatos,dos movimentos sociais e das universidades públicas?
Por que é urgente voltar a Singer hoje?
Hoje, voltar a Singer é urgente! Vivemos sob colonialismo digital: algoritmos fechados controlam trabalhadores e consumidores. Os princípios do software livre, transparência, colaboração e autonomia, passaram a ser ignorados até pela esquerda ou capturados pelo capitalismo de plataformas.
Tecnologia nunca foi neutra, sempre foi a espinha dorsal do poder: das estradas romanas ao arado feudal, da máquina a vapor aos algoritmos. Hoje, o poder está na infraestrutura de dados, nos códigos fechados e nos algoritmos da IA. O celular virou capataz dos trabalhadores e trabalhadoras, ele dita o ritmo, avalia o trabalho e precariza com falsa autonomia. A pergunta de Singer continua: é possível ter uma tecnologia que não reproduza a desigualdade, mas que a supere? A resposta já existe e está totalmente disponível para baixar, estudar, usar, modificar e redistribuir.
Vamos repensar o "des"envolvimento?
A palavra "desenvolvimento" é formada a partir do verbo “desenvolver”, que no português medieval significava "desenrolar" ou "desembrulhar", ou seja, literalmente, "não-envolvimento". O conceito de desenvolvimento econômico nasceu nos anos 40, no pós Segunda Guerra, para classificar os países a partir de indicadores financeiros baseados em acumulação de capital. Apesar de hoje estar ligada a progresso, crescimento e evolução, Ailton Krenak costuma criticar o “desenvolvimento” como um projeto que separa as pessoas da terra e transforma a vida em recurso a ser explorado. Para ele, esse modelo cria uma relação de distanciamento, uma espécie de desenraizamento. Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, também faz uma crítica direta à ideia de “desenvolvimento” como algo imposto pelo mundo colonial, que organiza a vida a partir da acumulação e da separação entre pessoas, territórios e natureza. Em contraste, ele defende o “envolvimento”. Originalmente, a palavra “envolvimento” indicava o ato de embrulhar ou rodear. Com o tempo, passou a abranger o sentido de estar "envolvido", comprometido emocionalmente ou fisicamente em uma situação. Significa literalmente participar, se engajar, como no modo de existência dos povos tradicionais: um jeito de viver baseado na relação, no pertencimento e na continuidade da vida em coletivo, em que não há separação entre cultura, natureza e território.
Precisamos trocar desenvolvimento por "envolvimento", e não só no nome. É recusar a ideia de que crescer o PIB significa ganho para as trabalhadoras e os trabalhadores. No capitalismo o desenvolvimento econômico beneficia poucos e empobrece a maioria. O PIB cresce, mas é distribuído apenas para os ricos. Para piorar a situação, isso ocorre com a mineração, que polui rios, com o agronegócio que envenena os alimentos, as terras e as águas e desmata florestas. O PIB e o capitalismo ignoram que, nos últimos 30 anos, de 1995 a 2024, 65.598 pessoas foram resgatadas em condições análogas à escravidão no país, o que representa uma média de 2.104,5 vítimas por ano, de acordo com dados do Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas no Brasil4.
O envolvimento econômico e solidário nasce das pessoas, dos territórios, da cooperação. Valoriza o cuidado, o trabalho coletivo, a agricultura familiar, as cooperativas. Não adianta o bolo crescer se só poucos comem. O importante é incluir os excluídos, cuidar, regenerar o planeta e mudar as regras do jogo com justiça social.
Quem decide o que é conhecimento válido?
A produção de conhecimento hoje é enorme, mas a briga para decidir o que vale como saber verdadeiro é briga por poder político. Pode parecer óbvio, mas a internet, os celulares, as redes sociais e as "inteligências artificiais" embaralham quem manda na hora de validar informação e o conhecimento. Essa tal de "Economia do Conhecimento" foi um nome inventado pelos países ricos (Banco Mundial, OCDE) para marcar a nova fase do capitalismo, em que informação e conhecimento viram motor da economia. Serve também para separar países (des)envolvidos dos sub(des)envolvidos.
A briga pelo que é conhecimento válido vem de longe: das navegações que massacraram povos originários e escravizaram pessoas negras até as universidades, que valorizam a escrita e desprezam a oralidade. É uma disputa violenta, que impõe visão de mundo e apaga saberes.
Hoje temos a ilusão de que todo mundo pode se expressar. Antes, precisávamos de jornal, rádio ou TV. Agora, uma pessoa com um smartphone posta um vídeo, um podcast ou um texto. Parece que não precisamos mais dos grandes meios de comunicação. Mas, essa liberdade é enganosa porque a internet não é neutra. Ela tem donos, cabos submarinos, datacenters, códigos fechados, minerais extraídos da natureza. Cada datacenter consome terra, água e minerais como ouro, cobre, níquel. Até as energias ditas limpas (solar, eólica) dependem desses minérios. A existência da internet produz profundos impactos negativos em nosso planeta, nas comunidades e nos territórios.
De uns anos pra cá, a inteligência artificial e seus donos vêm dominando o que a gente chama de "conhecimento válido". É bom lembrar o óbvio: há saberes que não estão na internet. E parte do que está, uma porção imensa, é simplesmente ignorada pelos buscadores, porque os algoritmos são fechados e reproduzem interesses privados. A IA não cria nada novo, ela embaralha o que já foi escrito e está disponível, indexado pelos mesmos algoritmos fechados. O resultado?
Autores desaparecem. E o que foi só falado, cantado ou plantado num quilombo, numa comunidade de terreiro ou numa aldeia? Isso não vira dado e não se transforma em conhecimento válido. A IA vira um retrovisor do pensamento que já é dominante. Espelho do passado. Farol de um futuro com diversidade? Parece que não poderá ser.
A máquina repete. Vai empilhando viés em cima de viés, calando quem já tem voz com pouco alcance e jogando as contradições pra debaixo de um tapete algorítmico, que nem tenta ser justo, porque não foi programado pra isso. E nós caímos na conversa de que ela é "neutra". Não é.
Repete tanto que cansamos de ouvir e acabamos acreditando que é verdade. Saturação vira prova. E o saber vai ficando conservador, empacado, porque nos contentamos com uma máquina que só sabe ecoar o que já estava escrito e disponível ao alcance de uma falsa neutralidade. Contestar premissa? Forjar uma ideia que não existia? Isso é tarefa dos humanos. A IA não dá conta.
Inteligência de verdade implica rasurar, duvidar e reinventar. Isso a cópia digital não faz. Não consegue fazer. É por isso que é altamente perigoso entregar para a IA a chave do que é ou não é conhecimento válido. Delegar isso pra algoritmo é abrir mão da crítica, é trancar o pensamento humano numa cela de repetições.
Inteligência é sentir o chão, aguentar contradição, abstrair e aprender com as dificuldades da experiência. Esse salto a IA não deu e, pelo andar da carruagem, nem vai dar. Então, que facilite o trabalho chato, mas que o ato de pensar, essa coisa que incomoda, que tira o sono, que desarruma a casa, siga sendo um gesto político, profundamente e teimosamente humano.
A crise silenciosa: ética como resistência da mente
Nós não estamos lidando só com aquela sensação de não saber o que vai acontecer amanhã. O problema é mais profundo: estão colonizando a nossa capacidade de pensar. O colonialismo digital vai mexendo na nossa cabeça, através dos aplicativos, dos algoritmos, das redes sociais, das notificações sem parar. Ele vai remodelando a consciência de todo mundo para que a gente não consiga mais ter nem tempo e nem vontade para pensar com profundidade. Aí cria uma desigualdade de raciocínio: quem ainda consegue pensar devagar e quem já perdeu essa possibilidade ou capacidade, vivendo só de rápido estímulo.
E a velocidade destrói a noção de processo histórico. Quando tudo é para agora, para ontem, em 15 segundos, esquecemos de onde viemos, perdemos a memória das lutas, e fica fácil cair no conto do neofascismo e neonazismo, que se alimenta dos discursos simples e fora de contexto.
Por isso, regenerar a consciência crítica também virou necessidade. Não é brincadeira. E a “política da atenção”, que é o esforço coletivo de recuperar a capacidade de pensar, de ler um livro sem interrupção, de conversar sem olhar o celular, isso também é um ato de resistência. Resistir hoje é desacelerar, é escolher o que merece nossa atenção, é recusar ser um zumbi controlado por algoritmos. Precisamos fazer isso juntos, em comunidade, porque sozinho ninguém conseguirá.
Tecnologia que machuca: dados, trabalho e saúde
As tecnologias proprietárias das bigtechs são máquinas de precarizar, vigiar e adoecer. A uberização atinge 25% das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros. "As rápidas transformações tecnológicas estão reconfigurando o mercado de trabalho global. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades atualmente utilizadas pelos trabalhadores precisarão ser adaptadas até 2030, o que reflete as demandas por competências críticas como pensamento analítico, resiliência e alfabetização digital. O relatório também projeta um impacto significativo da automação e da IA, com 170 milhões de novos empregos criados e 92 milhões deslocados no mesmo período5." Em 2024, afastamentos por problemas mentais cresceram 68%6 e 143%, em 20257. A vigilância digital viola a privacidade. O Brasil é o 7º país que mais vaza dados8. O ICE dos EUA gasta milhões para vigiar com IA.
Três pilares são necessários para resistir: economia solidária (cooperação, gestão coletiva), software livre (auditar algoritmos) e soberania digital (controle popular sobre os códigos, dados e infraestrutura).
Precisamos compreender o software livre como ética de cuidado. Software livre não é só código. É a antítese da obsolescência programada que sangra os minerais da terra e enche o mundo de equipamentos, muitas vezes sem necessidade. É a recusa da "caixa-preta" inacessível. Porque transparência repara. Acesso integra. Colaboração sustenta o bem viver de todas e todos.
A metáfora do território digital também nos ajuda a compreender a monocultura tóxica (software proprietário), que ocupa tudo com pouca diversidade, usando agrotóxicos digitais (malware, DRM) e transgênicos (códigos modificados e patenteados). O solo se esgota; as sementes são dos senhores colonizadores. A agrofloresta digital (software livre e datacenters soberanos) abriga diversidade de sistemas que se ajudam. A muvuca das sementes (os códigos livres) é guardada por todo mundo, e o solo fica mais fértil a cada ciclo.
Há também a conexão com práticas regenerativas. A estrutura digital consome água, minério, energia, destrói a terra. O software livre, ao fazer o hardware durar mais e estimular a reciclagem, reduz a demanda por extração. A lógica do cuidado é a mesma: cuidar do solo ou do código e gerir água ou repositórios como bens de todas e todos. Não há regeneração sem transparência.
A sangria de recursos públicos e a colonização acelerada
Enviar dinheiro público para empresas estrangeiras significa ignorar e menosprezar o conhecimento livre que já existe no Brasil, além de contribuir para atrasar a criação de ecossistemas de tecnologias sociais e livres. Se não existir um movimento forte pela soberania digital de fato, o Brasil se transformará em uma irrecuperável colônia digital, e ele está correndo a passos largos nessa direção.
A colonização das mentes brasileiras criou uma profunda aceitação voluntária e faz com que os gestores do Estado brasileiro prefiram enviar bilhões de reais do nosso dinheiro público (dos nossos impostos) para empresas estrangeiras, ao invés de investir no aperfeiçoamento do já existente conhecimento brasileiro, que já cria softwares livres e públicos, como o Software Público
Brasileiro9, disponível para uso, modificação e distribuição com total transparência, que podem ser completamente auditados a qualquer momento por qualquer pessoa, coletivo, movimento social, sindical, empresa ou governo.
Quem em sã consciência paga bilhões de reais por tecnologias totalmente fechadas e inauditáveis, que são usadas para adoecer pessoas, destruir o planeta, saquear os nossos minerais, consumir a nossa água e energia, em vez de investir em tecnologias e softwares livres que envolvem as pessoas, comunidades e territórios em um processo coletivo e autogestionário para promover o bem comum?
De acordo com a pesquisa da USP e UnB, "Contratos, Códigos e Controle: A Influência das Big Techs no Estado Brasileiro", publicada em 07/202510, o Estado brasileiro pagou para empresas estrangeiras de tecnologia pelo menos R$ 23 bilhões entre 2014 e junho de 2025. Isso em softwares, nuvem, segurança… E o mais assustador: só em um ano (junho de 2024 a junho de
2025) foram R$ 10,35 bilhões, quase a metade de tudo o que foi gasto em mais de uma década. Ou seja, a colonização do Brasil está se aprofundando em alta velocidade.
Vamos imaginar esses R$ 10,35 bilhões que o Estado brasileiro gastou com as bigtechs em apenas 1 ano (entre junho de 2024 e junho de 2025):
R$ 1 milhão: Se você gastar 100 mil reais por dia, seu R$ 1 milhão irá acabar em apenas 10 dias. R$ 1 bilhão: Se você gastar 100 mil reais por dia, seu R$ 1 bilhão irá acabar em 27 anos e 4 meses, ou cerca de 10 mil dias.
R$ 10 bilhões: Se você gastar 100 mil reais por dia, seu R$ 10 bilhões irá acabar em 273 anos, 11 meses e 20 dias, ou cerca de 100 mil dias.
Esse valor é por baixo, bem por baixo. Isso porque os sites de transparência dos municípios, estados e governo federal não têm padrão, o que dificulta a verificação e cruzamentos dos dados. Sistematizar esses dados só é possível com muito trabalho e atuação de especialistas. A população em geral jamais conseguirá cruzar essas informações. Por isso, o nosso nível de transparência e capacidade de fiscalização é reduzido. Não existe padronização. Existe uma grande bagunça que dificulta a fiscalização.
Quem mais pagou nesse exemplo de período de um ano? O governo federal, com R$ 4,6 bilhões; os estados, com R$ 3,7 bilhões; e as prefeituras, com R$ 2 bilhões.
Entre 2023 e junho de 2025, só em nuvem, foram R$ 9 bilhões, em licenças, R$ 5,97 bilhões e em segurança, R$ 1,91 bilhão. Um salto absurdo: em 2022, os gastos no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) eram de R$ 8,9 milhões; em 2023, pularam para R$ 8,93 bilhões, mil vezes mais.
Quem leva essa grana? Microsoft (R$ 3,27 bilhões, sendo R$ 1,65 bilhão só no primeiro semestre de 2025), Oracle (R$ 1,02 bi), Google (R$ 938 mi) e Red Hat (R$ 909 mi).
Esse modelo de "aluguel digital" faz com que paguemos por sistemas que não controlamos. Dados sensíveis, como os da saúde, ficam sujeitos a leis estrangeiras (como o Cloud Act dos EUA).
Além de pagarmos R$ 23 bilhões para usar tecnologias fechadas, entregamos de graça todos os nossos dados, a nossa produção científica e a nossa produção cultural para serem processadas pelas IAs dos EUA, cujo resultado é usado para nos manipular, inclusive em nossas eleições. Por isso, essas big techs receberam mais do que R$ 23 bilhões.
Desafio de construir um projeto nacional de soberania digital
Diante do colonialismo digital e da urgência de regenerar, construir um projeto nacional de soberania digital exige todo mundo junto: governo federal, movimentos sociais, sindicatos, movimentos e empreendimentos da economia popular e solidária e comunidades de software livre.
Esse projeto não pode ser imposto de cima para baixo, tem que ser construído junto, respeitando saberes locais e experiências que já existem. A soberania digital é condição para qualquer projeto de regeneração, porque, sem controle sobre a estrutura que organiza nossa vida coletiva, a gente continua refém de um modelo que destrói a natureza e explora os trabalhadores. O chamado do professor Paul Singer, tecnologia como bem de todos a serviço da vida, só vai se concretizar se a gente fizer essa aliança ampla, com todo mundo junto.
Propostas de Ação
Com base nas reflexões apresentadas, propomos as seguintes ações para a construção de um projeto nacional de soberania e envolvimento solidário:
- Socialização do Conhecimento: Garantir que o conhecimento e a tecnologia sejam tratados como bens comuns, livres de patentes privadas e disponíveis para toda a sociedade.
- Adoção do Software Livre pelo Estado: O governo deve usar e incentivar softwares livres e hospedar dados em datacenters soberanos para garantir transparência e auditabilidade.
- Fomento à Economia Solidária: Fortalecer iniciativas baseadas na autogestão, cooperação e ajuda mútua, integrando movimentos sociais, sindicatos e universidades.
- Implementação de Práticas Regenerativas: Substituir a lógica da monocultura e dos agrotóxicos pelo Sistema Agroflorestal Agroecológico (SAFA), focando na recuperação dos biomas (solo, água e florestas).
- Construção da Soberania Digital: Criar territórios digitais soberanos que protejam os dados da população, combatam o racismo e o fascismo algorítmico e priorizem o bem comum sobre o lucro corporativo.
- Regulação de Recursos: Estabelecer normas para o controle nacional sobre terras, águas, trabalho e dados, impedindo a extração predatória por potências estrangeiras.
- Regeneração da Consciência Crítica: Promover a "política da atenção" e o pensamento profundo, como formas de resistência ao neofascismo e ao controle algorítmico.
- Articulação Regional e Nacional: Buscar negociações nos BRICS e na América Latina para construir um projeto nacional popular que recuse a inevitabilidade tecnológica das big techs.
- Fomento à construção de Centros de Dados de pequeno e médio porte, distribuídos em territórios e comunidades organizadas, com presença de pontos e pontões de cultura, organizações populares, movimentos sociais, empreendimentos e redes de economia solidária, que usam software livre e praticam governança coletiva e solidária, como forma de diminuir os impactos ambientais do alto consumo de energia e de água dos grandes datacenters das big techs.
Brasil, 28 de abril de 2026
Bel Silva: Ativista, Educadora Social, Defensora de Direitos Humanos e Agente de Economia Solidária
Fabianne Balvedi: Agente Territorial do Programa Paul Singer de Economia Popular e Solidária, arquiteta, midiativista e pequisadora independente. Integrante dos movimentos pelo Software Livre, Rede das Produtoras Culturais Colaborativas e do Ponto de Cultura Digital e Mídia Livre Estúdio Livre.
Inês Simon: jornalista, mestre em Gestão de Segurança Pública, sindicalista da CUT, feminista popular, integrante dos Movimentos Nacionais de Economia Solidária e de Software Livre, da MMM e da RESF. Integra o Coletivo Quintal Vivo de agroecologia urbana e é agente territorial do Programa Paul Singer no ES.
Samuel Virginio dos Santos: AGEPS Programa Paul Singer região de Bauru – SP.
Noé Humberto Cazetta: Pós graduado em Gestão Ambiental - Agente de Desenvolvimento Territorial de Economia Solidária da Região do ABCDMRR.
Everton Rodrigues: Integrante do Movimento Software Livre, da Economia Popular e Solidária, da Rede de Economia Solidária e Feminista e da Rede pela Soberania Digital. Agente Territorial do Programa Paul Singer da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho / Contato: (12) 99145-5394 / GnuEverton@autonomia.lat
Cleber de Araújo: Graduado em Processamento de Dados, Especialista em Engenharia da Informação e Mestre em Gestão Pública - vix.cleber.de.araujo@gmail.com
José Roberto Sanabria de Aleluia: Graduado em Filosofia, Especialista em Comunicação Popular e Comunitária e Mestre e Doutor em Educação - Agente Territorial do Programa Paul Singer da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho / jose.sanabria@unesp.br
Carlos Eduardo Falcão Luna: Cientista social, doutor em geografia, integrante da Rede Nacional das Produtoras Culturais Colaborativas.
1 https://www.scielo.br/j/ea/a/qzkhXSYNy9DtBzPpwQZjJdj/?format=html&lang=pt
2 https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.html
6 https://csb.org.br/noticias/afastamentos-saude-mental-crescem-2024
7 https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/saude/audio/2025-12/brasil-registra-aumento-de-casos-de-afastamento-por- causas-mentais
9 https://softwarepublico.gov.br
10 https://nucleo.jor.br/content/files/2025/07/Contratos--C--digos-e-Controle.pdf
Agradecimento: Beatriz de Castro da Cruz (revisão gramatical)